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De quem é a culpa da superlotação dos serviços de urgência e emergência?

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É possível notar que esse é um problema relacionado ao gerenciamento precário dos leitos e uma das formas de melhorar esssa gestão é aplicar a metodologia Lean

Por Priscilla Martins

Durante vários anos tínhamos a convicção de que a culpa da superlotação do serviço de urgência e emergência era devido aos atendimentos de menor complexidade e dos pacientes que poderiam ser direcionados para atendimentos ambulatoriais. Com isto, foram realizadas medidas para ordenação do fluxo da urgência e emergência como a criação de protocolos de triagem, para que os riscos dos pacientes fossem dimensionados e o seu atendimento diferenciado. E também houve a implantação em vários locais das áreas de Fast Track onde cabe ao médico se deslocar até os pacientes de maior complexidade.

Atualmente percebemos que nossos serviços de urgência e emergência continuam superlotados e temos em mente a pergunta: de quem é culpa dessa superlotação? Sabemos que o pronto-socorro é um setor de grande variabilidade no seu fluxo de atendimento, e que esta característica é natural da dinâmica do setor e impossível de ser eliminada, mas é preciso ser gerenciada por práticas de gestão, governança clínica e ferramentas de gestão aplicáveis. A gestão em Saúde está adotando novas metodologias para o setor, como por exemplo a metodologia Lean muito conhecida no mercado automobilísticos devido sua criação pela Toyota. A filosofia Lean ou Lean Healthcare, quando aplicada na Saúde, consiste em uma prática que auxilia na melhoria e continuidade dos processos, com eliminação de desperdícios e atividades de baixo valor agregado.

A primeira coisa que precisamos ter em mente é que um pronto-socorro superlotado não é uma falha exclusiva do setor, e sim um problema de toda a instituição hospitalar. Isto pois, a saída do pronto-socorro em muitas das vezes é a entrada nas unidades de internação, e aqueles pacientes classificados com alto risco certamente irão necessitar de maior assistência. Por isso, a superlotação não pode ser vista como uma falha local, como era culturalmente identificado. Estudos internacionais e que agora já estão em aplicação em alguns locais no Brasil confirmaram que a culpa da superlotação dos serviços de urgência e emergência está relacionado, em grande parte, ao não gerenciamento dos leitos de forma adequada.

Para se ter uma ideia, a preocupação com a superlotação na Saúde Pública é tamanha que, no início de outubro, o Ministério da Saúde divulgou uma lista com o nome de 20 hospitais selecionados para a próxima etapa do projeto Lean nas Emergências, programa em parceria com o Hospital Sírio-Libanês com objetivo de reduzir a superlotação e melhorar o atendimento em urgência e emergência de hospitais públicos e filantrópicos. Esse programa integra o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI-SUS).

Ainda conforme o Ministério da Saúde, algumas instituições como o Hospital Estadual de Urgências da Região Noroeste de Goiânia Governador Otávio Lage de Siqueira (HUGOL), Hospital de Base do Distrito Federal (IHBDF) apresentaram resultados positivos após a aplicação da metodologia, que basicamente funciona da seguinte forma: quando a superlotação dos serviços de urgência atinge determinados critérios padronizados, é acionado um plano de ação em que os pacientes  são acomodados provisoriamente nos corredores da ala de internação. Essa medida tem como objetivos:

  • A conscientização da equipe sobre a necessidade do giro de leito e efetivação das altas possíveis;
  • Gerenciamento eficaz dos serviços de gestão do leito;
  • Adoção de espaços para sala de alta e até mesmo unidades de internação.

Para a avaliação dos resultados são levados em consideração critérios como o tempo de passagem dos pacientes pelos serviços de urgência, a permanência hospitalar, o tempo de alta entre outros critérios que compõem o indicador denominado NEDOCS (sigla em inglês para Escala de Superlotação do Departamento Nacional de Emergência). Estas ações irão melhorar a segurança da assistência tendo em vista que pacientes que permanecem por mais de 12h no pronto-socorro possuem o dobro de risco de mortalidade.

Um simples atraso na limpeza do leito acarreta em maior tempo de ociosidade, além de impedir que algum paciente que aguarda internação possa ocupá-lo. Além disso temos os típicos pacientes que recebem alta médica e que por algum motivo aguardam no leito e sua alta hospitalar é realizada em um período bem superior. Esses e outros pontos podem impactar que, por exemplo, um paciente receba alta de uma Unidade de terapia Intensiva (UTI), espere por mais tempo pela transferência para outras unidades de atendimento menos complexas. Faz-se necessário então promover a melhoria da capacidade operacional, da organização dos fluxos e processos de trabalho e principalmente do envolvimento da equipe com a gestão de leitos, e alta gestão do hospital. 

Priscilla Martins é enfermeira, especialista na área assistencial e consultora da GesSaúde. É classificadora de risco pelo protocolo de Manchester; especialista em enfermagem com ênfase em nefrologia e pós graduada em Gerenciamento de projetos.

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18 de outubro de 2018 | Atualizado dia 22 de outubro de 2018


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