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Desafios da Saúde: transformação digital não acontece sem maturidade de gestão

Por Adriele Marchesini

Com a informatização, hospitais têm ganho financeiro e atendimento mais ágil; para mudar, porém, é preciso aliar processos e pessoas à inovação

por editorial GesSaúde

Com a transformação digital, instituições de Saúde do mundo todo estão automatizando processos e adotando tecnologias. Segundo um estudo realizado pela McKinsey & Company, esse cenário é reflexo da mudança de perfil do cidadão: mais de 75% deles esperam utilizar serviços digitais do setor no futuro. A pesquisa mostra, ainda, que hospitais conectados são 50% mais propensos a aumentar a participação no mercado e elevar as margens de lucro em comparação aos concorrentes sem acesso à tecnologia.

Segundo Paulo Marcos Souza, conselheiro do Instituto Latino Americano de Gestão de Saúde (Inlags) e ex-presidente da Aliança para Saúde Populacional (Asap), a transformação digital beneficia, principalmente, quatro aspectos do hospital: gestão, integração de sistemas, avaliação das instituições e pagamento. “O sistema de Saúde atual é desintegrado e as informações estão dispersas. A tecnologia ajuda a reunir esses dados e permite que as avaliações sejam mais assertivas e aprofundadas”.  

Os modelos de pagamentos também podem ser mais precisos,  reduzindo glosas. “Hoje, a remuneração é baseada em quantidade. Com a tecnologia, as instituições conseguem adotar um modelo em que o cidadão ganha com bons resultados e as informações geradas servem de insights  para a melhoria da instituição”.

Essas mudanças favorecem o acompanhamento em tempo real e atendimento personalizado dos pacientes. “Por meio da tecnologia, os hospitais têm facilidade para acessar a base de dados e os históricos. Assim, o médico pode compartilhar essas informações com outros colegas, monitorando os quadros clínicos”, ressalta Souza.

Os profissionais de Saúde contam com ferramentas digitais para auxiliar a gestão financeira e também o atendimento, tornando-o mais ágil, seguro e baseado em informações em tempo real – entre elas o prontuário eletrônico do paciente (PEP), checagem à beira leito, big data, internet das coisas e telemedicina. Segundo Fernando Teles de Arruda, coordenador adjunto do curso de Medicina da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), a adoção dessas tecnologias muda significativamente as duas grandes áreas do hospital:

  • Backoffice: software de big data e analytics tornam os processos de gestão e recursos humanos mais enxutos, alinhados com informações registradas em tempo real. “A maioria das instituições ainda usa pouco os sistemas de gestão hospitalar, em média 35% da capacidade”, ressalta Arruda. Com eles o processamento de dados se torna mais rápido. As equipes de RH conseguem acompanhar o desempenho dos profissionais e a área de finanças organiza melhor o controle de gastos.
  • Assistencial: elementos digitais possibilitam que os profissionais acompanhem toda a jornada do cidadão: a entrada no hospital, internação, uso de medicamentos, alta e monitoramento. “Todos os passos dele são monitorados e passam pelos centros de custo e operação. Se ele entrou na emergência, o sistema de gestão registra. Se o médico prescreve um medicamento, a farmácia revisa o pedido e ele também é registrado. A segurança é muito maior”, explica Arruda.

Maturidade de gestão

Os especialistas lembram que a transformação digital vai muito além do investimento em tecnologia. É preciso redesenhar os processos internos da instituição para, assim, saber de que forma a inovação pode contribuir para otimizar cada atividade. “Hoje, é impossível falar em digitalização sem o amadurecimento do hospital. Muitas vezes, a instituição acaba fazendo o caminho inverso: monta uma grande estrutura tecnológica e só depois pensa na maturidade”, ressalta Arruda.

A certificação da Sociedade de Informação em Saúde e Sistemas de Gestão (Healthcare Information and Management Systems Society – HIMSS) é um exemplo de como a maturidade de gestão e a tecnologia precisam caminhar juntas no hospital. Ela funciona de maneira similar a qualquer acreditação hospitalar, com a diferença de avaliar se os processos assistenciais estão, de fato, apoiados e automatizados por sistemas e tecnologias digitais. Mas, antes de mais nada, é preciso que o hospital tenha seus processos mapeados e desenhados, a fim de identificar de que forma a tecnologia pode auxiliar na execução das atividades.

Essa tarefa é tão complexa que, no Brasil,  apenas três organizações conquistaram o Estágio 7 da HIMSS e receberam o título de hospital digital. “O Brasil tem cerca de 6 mil hospitais. É preciso preparo para se transformar digitalmente”, ressalta Souza.

O primeiro passo é avaliar onde a instituição está em termos de maturidade e aonde quer chegar com a digitalização. A partir daí, identificar os gargalos e focar na solução de problemas que atrasam esse processo. É importante também revisar as práticas e os sistemas usados. “Hoje em dia, um leito fica desocupado por horas por falta de monitoramento e planejamento. Antes de pensar em tecnologias revolucionárias, é importante alinhar os processos e fazer com que as áreas conversem entre si”, explica Souza. Já a gestão do estoque de farmácias também deve ser revista. Sem ela, hospitais investem em medicamentos que se perdem por vencimento, elevando os índices de desperdício, entre outros problemas.

A mudança de cultura e a capacitação de pessoas são tão importantes quanto o aprimoramento de processos. “Não adianta ter um bom sistema se os profissionais não souberem usar a informação de forma correta e estruturada”, ressalta Souza. Médicos, enfermeiros e demais profissionais que atuam no hospital precisam entender essa nova fase e receber a capacitação necessária para que, por exemplo, preencham corretamente os prontuários e deixem de lado a cultura do papel e caneta.

 

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Foto: Depositphotos


19 de Abril de 2018 | Atualizado dia 30 de Abril de 2018


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