Voltar

Maturidade de gestão hospitalar: hospitais devem se juntar para sobreviver

Troca de experiências permite conhecer diferentes realidades e buscar ideias para otimizar o negócio

Roberto Gordilho

Dias atrás eu compartilhei um artigo contando sobre o incômodo que o tema maturidade de gestão hospitalar sempre me causou. Recebi uma série de comentários, tanto ao vivo quanto nas mídias sociais, que me fizeram ter ainda mais certeza sobre a relevância e demanda do mercado sobre o tema. Então, é hora de ir um pouco mais a fundo nessa discussão e tocar num tema que muitos podem não gostar, mas que precisa ser debatido: a total rejeição que os hospitais têm com o compartilhamento de experiências.

O ser humano é um ser social e se une para aumentar as forças desde o início dos tempos. A sociedade é uma forma organizada de aproveitar ao máximo as capacidades e especialidades do outro. Existem dezenas de milhares de associações de classe em todo o mundo, representando os mais diversos grupos – corporativos ou não – nas quais seus membros compartem desafios e aprendizados. Tudo para o bem comum e desenvolvimento de todos.

(Vamos, agora, ao tema que boa parte do mercado de Saúde pode não gostar.)

Toda essa gente, então, está errada e só os hospitais brasileiros estão certos? O melhor, mesmo, é manter informações e conhecimentos absolutamente protegidos, no fraco esquema do salve-se quem puder?

Sei que há inúmeras associações que representam as instituições de Saúde no Brasil, elas são muito importantes e não é a elas que me refiro. Trato da cultura do associativismo – o hábito de compartilhamento de conhecimento de dentro para dentro –  e não somente para fora, como ocorre com a maior parte das entidades de classe do setor. São duas coisas diferentes.

O compartilhamento é necessário para a Saúde e crucial para a evolução da maturidade da gestão hospitalar – mas não é praticado por puro costume.  Em uma das dezenas de reuniões que já fiz neste ano pela GesSaúde, o diretor de um hospital me disse que adorou a proposta do PROAMA (Programa de Aceleração de Maturidade de Gestão da Saúde) mas que não poderia participar porque há módulos da consultoria que são aplicados em conjunto com outras organizações. O que o impediu de seguir adiante com algo que ajudaria a elevar receitas, diminuir custos e melhorar o atendimento ao paciente é uma antiga briga familiar que separa os dois principais hospitais da cidade. Essa história se repete em todo o Brasil, com uma ou outra alteração no enredo.  A disputa de egos impede o atar de laços.  O problema é que todos perdem.

Mudanças culturais não ocorrem de um dia para o outro, e essa nem é minha pretensão. Este texto serve para que a gente se una e comece a pensar no assunto.

Mas que fique claro: associativismo não é sinônimo de abertura de informações privilegiadas ou sigilosas. É troca de experiências para que se alcance o círculo virtuoso de erros minimizados e acertos maximizados. Isso significa discutir referências de casos, sem, muitas vezes, citar detalhes como o nome da instituição – com todo o processo sendo conduzido por alguém de fora, que filtre as informações necessárias e permitindo que um grupo, restrito e selecionado de pessoas, discuta sobre o assunto com a metodologia adequada. É como amansar uma fera:  preciso ir com calma, de pouco em pouco, para mostrar que é possível criar uma relação de confiança.

Deixar o ego de lado e ser capaz de trabalhar junto, por si só, já é um sinal de maturidade – e não digo só da gestão hospitalar, mas do líder de forma holística. Permitir que os interesses da instituição e das pessoas que dela se utilizam sobreponham os desejos individuais é, sim, crucial para o desenvolvimento da instituição, mas, acima de tudo, para a sobrevivência do negócio. Isso é ainda mais evidente em tempos de competitividade acirrada, com a chegada de novos players, nacionais e internacionais na Saúde brasileira, que podem acabar, de um dia para o outro, com organizações retrógradas e ineficientes financeiramente por entregarem um resultado melhor e mais barato ao paciente (mas isso é assunto para outro artigo).

O trabalho em conjunto deve ser encarado como, de fato, ele é: uma maneira otimizada de aprender, se desenvolver e crescer juntos. Sim, juntos. Porque a Saúde é feita por muitos. Um, sozinho, não tem como deter a solução de todo um segmento econômico. E nem consegue se abrir para novas e mais baratas soluções que – por que não – o salvem de uma falência, obsolescência, ou que, ao menos, lhe ajudem a pensar em outras possibilidades.

Se você chegou até aqui, lhe pergunto: está disposto a conversar sobre isso? Então deixe seu comentário. Vamos entender como desenvolver a maturidade de gestão hospitalar. Discutir sobre o tema, expondo ideias, preconceitos e medos, é o embrião de algo que pode ser muito maior.

Roberto Gordilho é fundador da GesSaúde, mestrando em administração, especialista em sistemas de informação, engenharia de software, desenvolvimento web e em finanças, contabilidade e auditoria, possui mais de 30 anos de experiência nas áreas de tecnologia e gestão, sendo 15 na área da Saúde.

Saiba mais:

A maturidade de gestão hospitalar que tanto me incomoda

Swot, BCG E 5 forças de Porter como estratégia empresarial no hospital

Hospital: como o planejamento estratégico eleva receita sem ampliar investimentos

Foto: Freepik


18 de julho de 2017 | Atualizado dia 18 de julho de 2017


ÚLTIMAS POSTAGENS

Governança Corporativa

A contramão do quartel na governança corporativa da gestão hospitalar

Para vencer as batalhas cotidianas do setor de Saúde, equipes precisam de comandantes maduros por Anderson Freitas Sempre se fala…Leia mais.

Tecnologia de Gestão

Como o gestor deve encarar as inovações tecnológicas na Saúde?

Líder deve estar preparado e ter maturidade de gestão para conduzir a transformação digital por André Farias Com a evolução…Leia mais.

Estratégia Empresarial

Como o jurídico pode participar e contribuir com a gestão de organizações de Saúde

Com intensa regulação do setor, departamento deve ter ação diferenciada e estratégica para fazer a diferença nos hospitais por Agnaldo…Leia mais.

Cadastre-se para ter acesso a conteúdos exclusivos